sexta-feira, abril 16, 2010

O dia em que as metrópoles se encontraram

I

“Longe, nesta estação de cura,

é que a cidade de S.Paulo vive em mim.

Porque ela está em mim, edificada

na colina nevoenta da minha saudade.”

(Rodrigues de Abreu)

II

“Meu amor prisioneiro
Onde quer que esteja, Deus te proteja
Cuide-se bem
Fique numa zen
Para sempre, amém.”

(Rita Lee e Roberto de Carvalho)



O dia em que se sentiu espaço, pensou que pudesse falar melhor de si. Olhava pela janela como se acompanhasse um trânsito de vida molhada por uma garoa fina de galochas, casacos e boinas de Março. Mas não, ainda não chovia. Era apenas um prelúdio em nublado, como o melhor gosto de pré que compunha suas mais intensas emoções.

A verdade é que, no dia em que se sentiu espaço, notou-se distante o suficiente para que pudesse se enxergar e ver a crosta cinza que se formara em gradação sobre aquele que julgava ser. Era cinza. Tão cinza quanto as cinzas de cigarro de três dias sobre o cinzeiro roubado do boteco, o ar de metrópole e a poeira que recobria a Folha de São Paulo esparramada sobre o sofá. Cinza, como a cor desse mesmo jornal que trabalhava há oito meses, mas com a ânsia de uma rotina de vinte anos.

No mesmo dia em que se observou espaço desenterrou uma vitrola antiga para ouvir seu disco da Rita Lee, pesquisou sobre poesia concreta, revisitou o MASP, Estação da Luz, Museu da Língua Portuguesa, e. Conseguiu, finalmente, tatear o peso que a informação sempre lhe tivera. Afinal de contas, um futuro jornalista tem que ser culto, filhinho. Tem que ler isso-aquilo-aquilo-outro, ver tais-tais-tais filmes, gostar de tal-tal-tal tipo de música. Espaço do estereótipo. Espaço instituído pela sociedade. E qual seria seu espaço?

.pois se viu Sampa, no dia, no momento, no insight em que, de fato, alguma coisa passou a acontecer em seu coração. Coração preenchido por outro espaço.

Aeroporto de Guarulhos, segundo decanato do último mês do ano. Corria feito um louco acreditando que iria perder o vôo das 9 se não chegasse em menos de 30 segundos cronometrados. Sobre o céu e o ponteiro menor em Sagitário, olhou para o pulso e encarou o descuido de acreditar em seu único relógio ainda não adaptado ao horário de verão. Não sabia mexer, era importado, hábitos exteriores, vai saber. E assim, sem escolha, teve que esperar na sala de embarque por um longo espaço de tempo, entre revistas com parênteses de idades e aqueles empresários caquéticos fazendo massagens de 30-reais- 15-minutos.

Resolveu, então, por praticar seu desapego ao instante social; olhos fechados e costas coladas sobre o acento em metal. Sentia o frio ultrapassar a fina fronteira de sua camisa de malha grafite para, aos poucos, ir esquentando com o calor do contato. Encostava cada vez mais à proporção que ia relaxando, enquanto ouvia uma música instrumental ambiente e se concentrava em não pensar em nada. Espaço curto, cur-tís-si-mo, de atenção da maioria de nós. A distração o motivou à medida que se viu quase sem espaço ao colar as costas com as da menina sentada no lado referentemente oposto ao seu do esqueleto das cadeiras. Invasão do espaço corporal por um estranho. Poucos conseguem superar com um sorriso ou lidar como um acontecimento de percurso; se encostaram, apenas, mas é necessário se desculpar.

Viraram-se frente-a-frente, viram-se estrangeiros diante de si. Espaço mínimo, ainda que, de fato, não pertencessem a um lugar comum. Mas foi no desvio de olhar por timidez que ele notou que ela lia Triângulos das Águas. Era o conto Marinheiro e pôde ver, de relance, que ela havia feito uma marcação. Antes que pudesse induzir qualquer tipo de pensamento, um sopro de memória lhe invadiu como se desse espaço de fala a um sentimento até então camuflado dentro de si.


- “Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.”


E a autopunição esparramou-se completamente sobre o espaço da vontade louca de nunca ter dito aquilo. Piegas, muito piegas. E ele lutara quase uma vida inteira contra isso. Não, aquilo não podia ficar assim, era uma questão de honra sobre os olhos da estranha. Pensou em dizer que sua tese tinha sido sobre o quê de jornalístico tinha na literatura marginal e desandar a falar que nem louco sobre a vida e a obra completa do Caio, e tudo de mais around, veias, artérias e aorta para o racionalismo categórico de estilo de época, e,e,e. E o fluxo se rompeu com um sorriso. Sorriso completo em semblante e intenção de calma,-não-é-tão-grave-assim.

Foi no dia em que se viu espaço que, primeiro, encarou-se diante de outro espaço. (#nowplaying: Elephant Gun - Beirut) Vinha a seu encontro uma leveza jamais experimentada por um espírito urbano demais para sentir cheiro de chuva na terra. Há tempos não lhe doía o prazer oposto da gentileza despretensiosa, do sol crescendo livre e colorindo de luz a pedra do Arpoador. Ela era mar e, ao mesmo tempo, era toda a gente que se banhava sobre aquilo tão seu. Por um momento, ainda que cético, desejou intensamente que tivesse a fé que não tinha para que Cristo, com olhos estáticos sobre a sua imensidão, pudesse sempre estar com ela. E estava.

Parece precipitado demais, eu sei. Mas conversaram, combinaram coisas, ela mostraria um Rio pra ele que parecia não ter muita intimidade, mesmo tendo morado lá quando menino e retomado incontáveis vezes para visitar seu pai. Aos poucos ele foi se soltando um pouco mais, falava de sua profissão, o que já tinha visto no cinema, os livros que gostou mais, os cursos, as falidas tentativas de ser atleta ou ator. Eles riam juntos, em harmonia, e ela mostrava um encanto tão contagiante que ele sentia vontade de ser melhor só para contar pra ela. E-mails trocados, telefones, “vou te procurar o Orkut” e... cada um para seu canto do avião, em casa, no hotel, em cada espaço de vida.

Do hotel com piscina, ele podia ver a praia. Pago pela Folha, janelas enormes. Ele nem se importava muito com isso de paisagem, mas até que passou a gostar de ver a noite em Copacabana; feiras livres, artistas de rua, velhinhos, Drummond, travecos... e pensou em até escrever um artigo sobre isso. Mas a noite ganhou um espaço especial e não era de matérias jornalísticas. Surpreendeu-se com uma vontade louca de fazer literatura, que não tinha desde seus 14 anos quando amou como conto de fadas em cenário e desfecho de gente grande. Sofreu, e como. E fim. Fim de ser assim.

Quis acender um cigarro, pegar um pedaço de papel e escrever sem pausas, mas não achou espaço adequado para restos e preferiu deixar o fumo para uma outra ocasião, já que o quarto tava tão-limpinho. Abdicou, então, da identidade em letra e resolveu sentar-se a frente do laptop para soltar de si o mais intenso fluxo de palavras desenfreadas, medos engasgados e vontade de explicar pra si aquilo que nem mesmo soube conter:

Rio de Janeiro, 12 de dezembro.

Sobre alguém que é Bossa Nova

Esta noite parece querer ouvir meus pensamentos confusos demais para os amigos de chope. Respeito, respiro e coloco Dindi para tocar re-pe-ti-da-men-te até que a voz da Gal se fizesse o meu silêncio. Tenho misturado divagações, eu sei. Mas entre os planos de amanhã andar de patins com o papai na Lagoa, se intrometia o te amaria um dia(.?) Não te amo, eu sei, não é assim, não é do-dia-pra-noite. Se soubesses o bem que eu te quero, o mundo seria, Dindi. Não te amo, mas sonhei com corredores e labirintos na noite passada.

Deito com “dragões”(não trouxe “triângulos”), histórias e vontades de entrega. Inútil ler o mesmo trecho três vezes e não extrair nada. Na-da. Pela terceira vez; não te amo mesmo. Com minha concentração nas águas do Dindi.

A noite quer me ouvir, ela aclama – Ah, Dindi – mas insisto em não falar mais de supostos e sonhos. Agora é, militarmente: viver, comer, beber, dormir. O tempo corre – “ e as águas desse rio, onde vão? eu não sei. “

Eu não sei.


E a vontade de continuar e concluir aquela quase carta escondida em texto escorreu de si com a mesma intensidade que a melancolia da incerteza dominava o tom de seus suspiros conclusivos. Derramou-se sobre um pedaço de cama e se encolhia a medida em que o computador descia sobre suas pernas e encontrava um lugar seguro para pernoitar. Sobre o adormecer, o sonho claro da angustia que se camufla nos diversos espaços do dia.

Eram cores amargas que encobriam grandes caixas com papéis que transbordavam sem parar, enquanto uma goteira preenchia um balde rapidamente. Ele corria por esse espaço na busca de encontrar uma solução para que os excessos coubessem em seus terminados lugares, precisos, encaixados. Sofria ao se ver atado diante da goteira, meu Deus, a goteira era independente dele, era vazamento do andar de cima (havia andar em cima?) e era preciso subir e fechar o registro rapidamente antes que inundasse tudo, e. Uma porta. Trancada. E uma voz que estimulava consigo um diálogo apertado:

- Será que você acreditaria?

- Talvez não, mas não iria pensar muito sobre isso. Eu só queria ter uma sensação certa de que deveria seguir, que tudo valeria a pena. Às vezes, queria acreditar que é além da minha imaginação o que eu percebo em algumas formas de me olharem. Queria ter isso como verdade sem precisar justificar. E alguns diriam: você é muito amado. E não haveria mais os labirintos e corredores da noite passada.

- Você deve abraçar tua loucura antes que seja tarde demais.

O dia em que se sentiu espaço, pensou que pudesse falar melhor de si. Olhava pela janela como se acompanhasse um trânsito de vida molhada por uma garoa fina de galochas, casacos e boinas de Março. Mas não, ainda não chovia. Era apenas um prelúdio em nublado, como o melhor gosto de pré que compunha suas mais intensas emoções.

.emoções de enchente que começaram a chover, poucos minutos pós, junto a grande São Paulo. Eram as águas de Março iniciando um novo pensamento de verão ( “e-as promessas-de-vida-no-seu-coração” ). Por isso, desceu corrente a Rua Augusta, voado, voando. Sentiu-se chuva caindo enquanto limpava as cinzas de uma eterna quarta-feira, de cigarro, de Folha, de si. Por fim, fez-se também mar ao desaguar-se em algo maior, bem maior.

E foi assim, no dia em que realmente se permitiu integrar no espaço de um amor, que pôde compreender-se diante das suas fronteiras flexíveis: em fluxo, dinâmicas, in-completas.

.completo, em seu estado integro de ser megalópole.

“O prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes afirmou em entrevista coletiva no início da noite desta terça-feira (6) que a maré alta pode piorar as enchentes na cidade, em caso de novas chuvas.” *









*(Fonte: site g1.globo.com)

sábado, dezembro 05, 2009

Pela janela blindada de um cavalinho de pau.

É duro se vê sozinho em um ônibus tangenciado por chuva pós um mergulho em pensamentos em plano-seqüencia. Daí você se dá conta que se algo acontecesse ali seria cada um por si e Deus por quem acredita, né?! pois bem,... Foi por isso que Dennis resolveu por amarrar direito os sapatos e deixar as mãos livres daquele copo vazio de mate natural diet. E foi também por isso que Tereza preferiu sentar-se ao ficar de pé, repousar a bolsa sobre o colo molhado e fechar os olhos, enquanto era embalada pelo som de seu ipod. Mas não, eles não sentaram lado a lado, nem caiu a caneta dela no chão, nem se agacharam juntos, nem “quando a luz dos olhos seus e a luz dos olhos meus resolvem se encontrarrr”. Não, definitivamente na-da disso aconteceu.
Ele era alérgico a flores, viciado em remédio para rinite e pai desde bem jovem. Perdeu o grande amor em uma viagem para visitar a mãe doente em Curitiba. Prometeu voltar em três semanas mas demorou sete meses, e ela já estava de mala e cuia em seu novo apartamento no Grajaú, com o filho e um amigo colorido da faculdade. Depois disso até se aventurou em outros casos, alguns duraram, estava noivo agora, mas - na condição de sinédoque de noventa por cento da população que circula pela rotina combinatória - matava um leão por dia para driblar aquelas cicatrizes guardadas em processo de abertura constante.
Ela, adoradora da primavera, da combinação de bege com salmão, ascendente em câncer, estudante de pedagogia. O patriarca da casa desde que o pai morreu. Uma mãe aposentada, chantagista e perdulária. Uma irmã com síndrome de down. Namorou por um tempo um alcoólatra mais velho, amigo do pai. Sofreu com traições, mas ainda assim era melhor dessa forma do que ter que conviver com a atração intensa que sentia pela professora de teoria da educação. #marciagoldschmidtfacts
É o ponto de Dennis. É o ponto de Tereza. Ambos despertam diante do fluxo de pensamentos. Ambos levantam, juntos, e ele a alerta sobre o dinheiro que está prestes a cair de seu bolso e o casaco que arrasta pelo chão, sem sequer imaginar quaisquer das dores dela. Ela agradece, sem indagar em pensamentos se ele é feliz. E eles se esbarram em uma educação distante, mas sem qualquer vestígio de troca, como aqueles figurantes do cada cenário particular que se trançam com cada história sem querer. Um cada por todos e todos por cada um. E seguiu cada um para um canto próprio quase egoísta dentro de si. Cada por si, consigo, com seus. E Deus? ... Deus por aqueles que acreditam.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Ouvi todos meus lamentos ao pé de meu próprio ouvido para chegar a conclusão de que não devo mais conservar distâncias. Não se vive só de ilusões e memórias confusas do mesmo modo que cantei mentalmente “além do que se vê” e as pessoas do metrô não bateram palmas juntas na hora do “toma o teu/ voa mais/ que a banda diz/ assim é que se faz.” Continuaram paradas dentro de si e de seu pedaço de dia. Eu também, só que sem rumo. Tudo de verdade me fazia questionar o pouco. Como pode? – um- peixe- vivo- viver- fora- de- água- fria. Viver de ônibus, pão e conversas sobre o clima é um saco. E pouco. Muito pouco. Mas ainda mais íntimo do que qualquer sonho meu.
Não será contada uma história passional; Um dia me disseram que isso acalma, é impulso, eu sei. Na medida em que esse desejo louco se desapegar um pouco e eu começar a ler outros trechos senão teu nome, você virá até mim. Manso, como tudo deve ser. É só seguir a desatenção dos teus passos diante de minhas distrações do que já foi convívio.
Teu signo é esquisito, não combina com o meu, mas algo nos atrai para uma mesma espécie de romance. Você vai ouvir meus trechos de carta de amor, confia. E poderei te sentar ao pé da cama para lhe contar de como fiz da nossa história passional...

...porque todo o dia tem um quê de 23.

Esfrego-me em minha própria cara um sofrimento cretino por uma paixãozinha borra-botas. Não chamaria de dor esse incomodo ciuminho que vem chegando a cada manifestação de felicidade tua além de mim. Seria injusto com o que já sofri. É uma cosquinha ruim, de certo, que até me faz rir enquanto juro para mim mesma que nunca mais passarei pela porta da tua casa por-nada. Sei que vou me trair. Pirraça de te ter por perto na hora do almoço, ou tão perto quanto um abraço de olhos, uma ousadia ou os últimos segundos de uma promessa qualquer de nunca mais. Por isso mesmo que até gosto um pouco de sentir esse ciúme nem-tão-ciúme-assim ( menos amarelo, mais abóbora), porque, é apenas dentro dele, só dele , que me sinto mais só dentro de você.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Dentro da sua noite

Devaneios, eu sei que são devaneios em medos de pressentimento. Calma, isso passa, pensa, acredita. Acredita, sim. Quero levantar ainda que permaneça de bruços sobre o breu. De um lado para o outro, o movimento só me traz mais calor, muito calor. Travesseiro baixo, planos longínquos. Em algum lugar de um passado de sons periódicos que parecem se intensificar com o tempo ainda que permaneçam na mesma freqüência. O tic-tac em uma noite de silêncio. Ainda faz calor, preciso ir a janela renovar o ar desse quarto de sempre, mas não quero levantar. Preciso dormir, meu corpo sente além do receio de pesadelos sinestésicos em vivência desses maus pensamentos. O sono descorda. Abro os olhos, fecho-os, pisco. Medo dessa sensação de cegueira em ausência de contraste claro-escuro. Visível-Invisível. Controle- Descontrole. Tenho medo do escuro. Penso em levantar, fazer algo útil, acender as luzes, mesmo que seja só um abajur, mas. Nada poderá ser resolvido agora, nada, eu sei, só preciso dormir. Eu tenho que dormir, mas é preciso de esvaziar para adormecer em paz. Começo a sentir um desconforto, viro o tronco, jogo as pernas para o outro lado, as costas estalam, viro a cabeça em direção a janela; o amanhecer. Começa a amanhecer, por fim. Pôr fim nisso. Quero levantar, mas vejo que seus traços começam as renascer junto com o s feixes de luz, ao meu lado, ali, no melhor lugar. Seguro, cheio de ar, cheio de luz, de olhos fechados para o mundo, abertos para si, no melhor lugar. Vejo sorrir em sonhos bonitos, desfrutando de sempre boa sincronia entre eles, todos. Vou perdendo aos poucos a vontade de levantar, vou relaxando, começo a ver graça no que compõe o lugar que me encontro e vou me sentindo mais segura ao fechar os olhos. Ali, sim, ali é o melhor lugar. E ao seu lado, deito e durmo.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Pêndulo de Newton

Ela pediu, sim, pediu. E ele disse que cantaria coisa besta, algo sem relevância, só para suprir os pedidos incessantes dela. Mas foi só fala de humildade, todos sabiam, ele sempre foi assim, charmosamente assim por excelência. Ela pediu e ele fez tão- bem-feitinho, como tudo que fazia pra ela, ainda que nunca tivesse se atentado para isso como uma prioridade.

Ela implorou, e ele disse que, agora pela segunda vez, só cantarolaria pelos cantos em distração, ou em ritmo dos passos de um caminhar distante. Ela implorou ao som de palmas que cantasse mais e mais e mais, porque até distante ainda era bonito, era puro, era distraído, era levemente livre por ser desatento. Mas no fundo, talvez nem tão fundo, ecoava em preocupação, apego, dependência, atenção. Atenção!só aclamava por atenção.

Ele aplaudia forte, sozinho, enquanto esperava eu cantarolar ao som daquela flauta doce na qual ele cismou em inovar. Ele aplaudia e tocava , doce, flauta, aquela falsa falta que mais era dependência, mas as palavras foram tornando-se raras, e por consideração cordial, eu cedi a ele uns assovios em melodias de lugar-comum. Nada era nosso, nada era sinfonia, nada era como o nunca aconteceu que ele compôs no ideal do aconteceria.

E eu acordava violões, violinos, flautas doces, reversas, pandeiros, chocalhos. Eu acordava com o tempo, e acordava em grito daquele silêncio mudo que ninguém se preocupa. Agora, o outro não se preocupa. O outro era ninguém, era todo um mundo. O outro era do mundo. O outro era mudo, dentro daquela orquestra ilógica. I-ló-gi-ca...ao ponto de afunilar-se,por fim, em um mundo com batucadas suaves d´Ela. Lógico...

Todos pedíamos, sim, todos nós pedíamos muito, mas sempre era insuficiente. Tudo era espera dentro daquela palidez engessada de cantar o quaisquer minha-tua-nossa pretensão em Villa Lobos se fez para acompanhar. E desafina. E desanima. E assim desafia as mesmas veias daquele único violão cego que soa sobre todos aqueles distintos desatinos sem acordes. Acorda! Mas ninguém sabe acordar...

terça-feira, outubro 07, 2008

Amar,Omar,o mar

Omar da Silva Ribeiro, 33, moreno-alto-bonito-sensual e um segredo.Todo o dia, eu disse TODO o dia, regava seus próximos dias em cima de um amor encolhido pelos cantos. Mas na primavera ele jurava que iria mudar e,otimista, acabaria floreando. Por tudo que era mais sagrado, ainda que não soubesse como.

Amar e seus segredos. Ela passa e pronto, aquele estalo ilógico que na-da consegue explicar. Ela não é pra mim, ela não gosta de mim, ela nem olha pra mim, e mais todos aqueles apreços e desprezos sobre preços,pesos e pesares. Porém, diante de um querer tão teimoso e cheio daquele “e pronto final” de vontade mimada, o espírito revolucionário-transgressor é sempre o primeiro a largar o barco em apego a bruta flor. É, de fato Omar tem até um certo deleite em amar, só não entende tal mecanismo .Simplesmente não-en-ten-de.

O mar e seu ser grego. Desaguares hierárquicos, sopros de ventanias, águas quentes, águas frias.Ressacas, muitas. Ondas que carregam matéria, pra dentro, pra fora, pra cima. Concha, caixote,corrente. Cores, tom-sobre-tom, som.Marés,sorte ou azar. E o grego? Diálogo em imaginação. Omar e seu tormento em segredo-grego: um amar com jeito de mar.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Receita de Plásticos e Prelúdios


Flexões de desapego, três por turno.
Copos d´água cheios de metades vazias.
A verdade dói:

Vovó Mafalda era homem
A Xuxa belisca as crianças e faz pacto com o demônio
Os antigos prodígios da TV agora comem pilha e engravidam de presidiários para aparecer no Gugu.
A áurea do início não é pra sempre
(te ver não é mais tão bacana quanto à semana passada)
Amor e encanto não coexistem,e.
Não.

Respira fundo, respira
para aceitar que, no fundo, a asfixia do auto-controle angustia

Pílulas de energético em cafeína, três por turno
Só assim pode-se fotografar as apáticas noites insones, insossas.

Nada será como antes,
Nunca.
Conta-gotas de 100 kg de chumbo e algodão
cada vez mais fortes contra a doce corrente da delicadeza

A verdade dói,tem razão.
A mentira também. De sempre ter razão

Aceite e salte da janela para um chão raso
Risos, apenas rasgos.
Não fique na sacada

Insignificar, jamais.

terça-feira, setembro 23, 2008

Para esquecer o amarelo que não sai com OMO.

Essa vontade louca de me apaixonar ainda me leva ao toddy da madrugada. Margarina, pão e blanquete. Esquento na chapa e penso. Cenas soltas suas, algumas bandeiras me fazem rir em transportes bobos. O barulho do elevador de quem mora no último andar, perto da sala de máquinas. Já era para estar acostumada, mas sempre tenho medo que alguém toque a campainha inesperada,alguns passos e a estaticidade em penumbra diante de meu olho mágico. Nunca aconteceu, ainda que a música de ligações encerradas no intercine seja igualmente assustadora. Acendo a lâmpada do abajur.Apago.Faço isso umas três vezes até não ver mais lógica senão mania. Acendo um cigarro, não fumo enquanto ambiciono o sono seqüente. Desejo sonhos claros. Desejo mais sonhos em claro. E lembro que é daqui que sempre surge essa maldita vontade louca de me apaixonar

quarta-feira, maio 21, 2008

patinetes,férias, outono.

Mariazinha oh oh oh é a parte da fábula que nem Esopo, nem os Irmãos Grimm ousaram a escrever. Tem em si as lições mais encantadas, quando na prática atual mais soa como um auto-boicote. Seu toc mais supremo é a cisma em se apaixonar loucamente por todos aqueles que lhe querem mal,que lhe fazem mal ou lhe esfregam,sadicamente, uma indiferença proposital.Sua maior missão é mudar a perspectiva do mundo, mas não há nada de altruísta nessa questão. Ela quer mesmo é mirar os corações mais distantes a seu favor.

No dia que conseguiu enfim subverter o priori, Mariazinha oh oh oh se descobriu e dançou sobre a face de princesa a ser coroada, tão linda de ser admirada e com um país a sua espera para explanar sua nudez.Mas isso era o fim para Mariazinha oh oh oh.Ela gostava de guerra,desafio,adestramento diante da totalidade de facas e queijos sobre as mãos.

Então,por fim, Mariazinha oh oh oh dominou a Europa, a Oceania e mais um continente a sua escolha, e foi assim que viveu infeliz para sempre.

Assim é Mariazinha oh oh oh , sempre super valorizando o percurso e rotulando a vitória como além da monotonia constante, mas simplesmente um grande pé no saco!



sexta-feira, janeiro 25, 2008

Como dois e dois(são cinco)

Só faltavam dois quarteirões para chegar em casa quando um temporal a surpreendeu sem espaços para pingos de anunciação: putaquepariu, tô de branco e esta bolsa ainda é emprestada – pensou, enquanto corria pra baixo da marquise de um correio fechado.

Não seria tão incoerente para um dia pelo avesso como aquele. Vamos lá, primeiro quadro: Despertador tocando se ela dança, eu danço e a notícia de véspera que seria o dia da limpeza na caixa d´água, logo, sem o banho. Segundo quadro: A comissão sobre as poucas vendas baratas quase nula. (#nowplaying: tem-te outra veeeez...) e ainda por cima fizera hora extra limpando o vômito seco de uma criança discreta na cabine dos fundos. Como se não bastasse, ainda perdera o último ônibus e teve que aceitar a carona do marido da dona da loja, que abdicou da sutileza das cantadas superficiais desde que o fantasma da consciência enrustidamente dentro do armário o chantageou mais intensamente.

- Ô sorte!

Mesmo que tivesse a vida toda não seria naquele cenário que queria gastar os seus tão contados minutos. Procurou a Marie Claire que guardava na bolsa, mas percebeu que esquecera no banheiro do shopping. Fazê-o-quê? Ah,sim, claro: hora de contar o número de cores distintas que tinha ao seu redor. Ô mania de contar tudo. Mas, respeitemos: era um dos TOC não superados nos tempos de infância. Sabia de cor do número de letras da legenda de seus filmes favoritos até a velocidade média dos passos por minuto dos seus incontáveis amores platônicos. Ative a máquina de calcular para acompanhá-la agora.

Ele vinha virando a esquina com um ritmo muito próprio, com a indiferença sobre um toró que encharcava sua blusa que não era branca e sua mochila típica-velha-de-guerra que não parecia ser emprestada. Assoviava bem alto chove-chuva-chove-sem-parar como um repente com o estalo oco dos pingos fortes batidos no asfalto também molhado. Uma forma despojadamente carismática para um estereótipo pseudo-marxista, com a barba propositalmente não feita e cabelos enrolados sem corte definido nem por aqueles que inventam a moda padrão. Cursava Ciências Sociais para não fugir da rota e usava chinelos com uma obrigação de quase um uniforme normalista.Tinha um belo sorriso de olhos.

Trinta e seis passos por minuto até parar em frente a mim – pensou aliviadamente orgulhosa.

Ele, como se falando ao vento, sem interlocutor definido e com um tom lento de quem pensava na hora, dizia que não queria pegar uma gripe e estava com os pés alagados demais a ponto certo de escorregar pelos infinitos buracos de rua e que, então, esperaria sob a marquise até que São Pedro encerrasse com sua faxina celestial.(resumidamente: bla-bla-bla-te-quero) Riu ironicamente de um jeito medroso e infantil. Riram juntos.

(ah, vai, como se Ela não soubesse) Entre três perguntas abrangentes, duas músicas favoritas em comum, um mesmo curso de inglês, uma mesma professora adorada, dois ciclos de amizades entrelaçados, um espelhado esfregar de mãos ansiosas, uma indagação:

- Me beijaria?

Pensa rápido: Uma chuva há tempos paradaUma bolsa emprestada jogada sobre um pano sujo, como um quase cuidadoUma blusa branca manchada de um azul molhado em um tecido vagabundoUm beijo atrás da orelha máscula onde a água não chegara pela obstrução do cabelo e o perfume legítimo permanecia,e...

Cheiro familiar lhe era aquele. Entre um beijo e um amasso insistia em voltar às costas da orelha dele, enquanto ainda achava graça da epifania curiosa e tentava desvendar e acalmar aquela angustiazinha como de quem esquece o que ia falar.

Me lembra a infância – pensa – mas não me parece tão distante assim.

Arregala os olhos aos gritos internos sobre os resultados da averiguação do subconsciente: putamerda! Perfume do meu pai.

Por alguns instantes até tentou esquecer o lapso sem culpados, prender o ar, respirar pela boca, mas em pouquíssimo tempo sua imaginação sinestésica já projetou um bigode sobre seus lábios e uma barriga que esbarrava na sua assiduamente. Foi-se esfriando o tesão, a paixão ou qualquer outro flash de sensações, sentimentalistas ou não, que desabrocharam naquela noite. Rendeu-se a sua má vocação para Electra (teria H?).

E assim, com o mesmo molejo que Ele veio pela esquina, foi-se até sua casa próxima, só que agora assoviava tropeços pelo asfalto, que há pouco ganhara em som, ao se enrolar em dúvidas e cismas egocêntricas sobre seu desempenho. Ela seguiu caminho semelhante, mas com uma boa distância. Ria sozinha, de si, de sua desgraça, mexendo a cabeça gesticulando o não-a-cre-di-to, enquanto contabilizava tudo o que perdeu: uma blusa agora manchada, um dinheiro que não tinha em uma bolsa nova, o dinheiro que ganharia pelo dia de comissão, e antigas ilusões que há muito a distraia com idealizações previsíveis e bons sonhos futuros.

- Ô sorte!